Farinha é pouca, o meu feijão primeiro! Já pensei, já matutei, já discuti e já observei diversas vezes o uso deste ditado, por diversas pessoas, e com diversas pessoas. Hoje, ao caminhar para o trabalho e presenciar mais uma vez uma situação na qual o dito se encaixaria perfeitamente, cheguei a conclusão que a satisfação do brasileiro não está em comer a farinha nem bufar o feijão, esta satisfação vem sim, tristemente, do prazer, do sentimento de conquista pessoal em não deixar nem farinha, nem feijão, nem tutu pro próximo comer. Pensem bem!
No sistema Inca Antigo, civilização primordial da América Latina, mais precisamente Peru e Bolívia, que data a sua extinção por volta do ano de 1530 na última batalha travada contra os Espanhóis, há uma altitude de 3500m em Cuzco, tudo pertencia a todos. Os templos eram construídos por todos igualmente, para serem usados, abusados, e admirados por todos. O OURO era de todos! As pedras das mega-construções de Machu Picchu e Wayna Picchu, dentre outros, vezes trazidas de até
Hoje, na América, existe um movimento aleatório de bondade que é contagiante. Pessoas acreditam na bondade ao próximo e no poder da expressão “pay it forward”. È o contrário do carma, se fazes algo bom, algo bom acontecerá pra ti. Sejam vitimas do Tsunami da Indonésia, ou do Katrina no sul do próprio país, uma vasta mobilização de ajuda era vista em todas as partes dos EUA. Ninguém estava em busca do feijão para comer, mas em busca da repartição, tanto do feijão como da farinha. Solidariedade. Solidariedade essa que não é em vão, acredito, existe também outra expressão nos EUA que diz “there is no free lunch”, tudo é feito por um motivo. Com isso hei de concordar. No mundo capitalista, mudando da água pro vinho, a expressão se encaixa perfeitamente. Porém, indo um passo adiante, a divisão do feijão e da farinha também! Não é apenas uma pessoa que agora não passa mais fome, somos duas! Duas que podemos produzir (já que saco vazio não fica de pé) e aprender a fazer mais feijão, que pode ser mais uma vez repartido, virando quatro comedores e produtores de farinha, que repartem novamente, e daí adiante.....bom, façam as contas! Todos saem ganhando. What goes around comes around! Tudo que vai, volta!
Infelizmente, nossa cultura não assimila essa democracia como verídica. Se tenho um balde de feijão, eu vou encher meu rabo hoje meu irmão e não vou deixar nem farinha entre os dentes pra cuspir na cara dos outros. E o cara sem nada.....se lenhou otário! Não vou nem pedir desculpas, não é minha a culpa! Eu ganhei e ele perdeu! Azar o dele!
Sento e assisto pessoas conhecidas, pais de amigos meus, amigos de infância do condomínio, do colégio, representantes do nosso governo, deputados federais, estaduais, ministros, sendo presos e acusado de roubar milhões para o beneficio próprio. Vão pagar? Comentamos em mesas de bar e banalmente a palavra “normal” sai como se fosse realmente “normal”, da boca de advogados, médicos, empresários e juizes. Será que é o sistema que é falho? Estamos realmente tão acostumados a tanta sacanagem que aceitamos a impotência como uma característica do brasileiro? Como no exemplo TAM, estamos sempre preocupados em apontar dedos e acusar um culpado. Somos??? Queremos um país limpo, de tudo, mas o mesmo rolo de 100 sacos de lixo que custam R$30.00 aqui, nos EUA custa US$4.00. Quem converte não se diverte. Quantos competidores temos produzindo sacos de lixo? A farinha é pouca, o meu feijão primeiro!
Você para na faixa de pedestre? Confesso: nem sempre paro, mas, em contrapartida, de vez em quando paro até em área proibida pra uma senhora ou criança atravessarem a rua. E ai de alguém buzinar, o dedo sai pela janela na mesma hora! Hipócrita? Hoje, um bom fdp preferiu jogar o carro em cima de mim quando atravessava uma rua nem um pouco movimentada na faixa, às 8 da manhã, e sem nem pedir desculpas arrancou em disparada. Hoje eu esperei e não atravessei. Hoje a farinha era pouca e o feijão dele foi primeiro. Hoje eu perdoei.
Como disse a poeta Elisa Lucinda, em seu poema “Minha esperança é imortal”, recitado por Ana Carolina, “Sei que não da pra mudar o começo, mas, se a gente quiser, vai dar pra mudar o final”.
Se a farinha é pouca, pode comer, gosto do meu feijão com arroz!
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